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Dec 02

II. Ciberplantas, Primo Lévi e controvérsias da vida verde

Primo Lévi morreu aos 68 anos e costuma-se dizer que foi suicídio - que pulou no poço da escadaria do seu prédio. Talvez por nunca ter se livrado da vergonha de ser homem. Talvez por nunca ter conseguido distinguir até que ponto era carrasco, compactuava ou resistia. Não funciona ficcionar a linha que separa verdes-do-bem de carrascos de maneira bicromático-objetiva, a distinguir imediatamente preto do branco. Nós não vamos pular no poço da escadaria justamente porque há níveis de cinza. E porque há níveis de cinza, simpatizo com o que propõem Isabelle Stengers e Philippe Pignarre em La Sorcellerie Capitaliste: em ser “lançador de sonda” (“jeteur de sonde”), como os funcionários que fazem prospecção submarina para que a navegação possa ir adiante. Ou seja, ativismo político hoje não é feito de respostas pré-formatadas. Ativismo tem que ser prospectivo.

Mais especificamente, está implicada aí certa cautela frente a projetos meramente nostálgicos em relação ao pré-capitalismo. Refiro-me a todo esse complexo na linha do Kulturpessimismus de Max Weber e da crítica à modernidade industrial de Walter Benjamin, uma tradição que a reflexão ecossocialista de Michael Löwy traduziu em anticapitalismo romântico (ver o livro “Romantismo e política”). Ou aquela vertente evasiva do bucolismo Coleridge-Wordsworthiano pelo qual quaisquer devotos de Alexander Supertramp (ver o filme “Into the Wild”) deixariam-se seduzir facilmente.

Risos, porque provavelmente enquadro-me na categoria última, a Supertrampiana, apesar de dela duvidar. Duvidar porque, como Elis, quero uma casa no campo / Onde eu possa compor muitos rocks rurais / e tenha somente a certeza / Dos amigos do peito e nada mais. Mas não ao modo amarelão de um ex-ativista que constroi uma chácara isolada - e surta porque saúvas arrombaram sua cerca viva (ver o romance “Um Copo de Cólera” de Raduan Nassar). Ou do isolacionismo transcendental de Supertramp, que foi fagocitado até a morte pela metafísica ecológica que tanto venerava. Nomadismo não precisa ser sinônimo de evasão. É preciso estar presente, mesmo quando em trânsito. Quem quer ficar cerrado em um quadro de Edward Hopper, afinal, mesmo que ele seja verde?

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