I. Ciberplantas, Primo Lévi e controvérsias da vida verde
A planta é destituída de seu status ornamental para se tornar um verdadeiro objeto de serviço, na vanguarda dos novos objetos, anjos guardiões que em breve nos protegerão
(Texto de apresentação do produto Bel-Air, hoje comercializado como Andrea Air)
Ontem soube, com alguma perplexidade, da existência dos filtros vegetais - ou ciberplantas para purificação do ar - de Mathieu Lehanneur. Foi no evento da Saint-Étienne Cité du Design, que está no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo.
Ocorre o seguinte. Se o compromisso da arquitetura ecológica e do design sustentável for apenas o de fornecer “objetos de serviço” para lucrar com o colapso do meio-ambiente, colhendo seus louros na rabeira da poluição e do esgotamento de recursos naturais, acho delicado compactuar tão rápido com o programa de Lehanneur - este de encapsular o verde para melhor extrair toxinas do ar. Ou, devo dizer, melhor garimpar mais-valia na desgraça ambiental?
Lembrei do que Deleuze conta sobre Primo Lévi no verbete “R” de Resistência do Abecedário. Segundo ele, o italiano dizia que, ao ser libertado de Auschwitz, fora dominado pelo que chamou de vergonha de ser homem. Vergonha que significaria duas coisas, basicamente - aqui em referência ao Nazismo - e eu cito o comentário deleuziano: “como alguns homens puderam fazer isso, alguns homens que não eu, como puderam fazer isso?” E “como eu compactuei? Não me tornei um carrasco, mas compactuei para sobreviver. E uma certa vergonha por ter sobrevivido no lugar de alguns amigos que não sobreviveram”.
Em outras palavras, quão complexo é traçar a linha que dissocia verdes-do-bem de carrascos? O que é compactuar? Se compramos uma bicicleta dobrável para que subtraia-se um carro de São Paulo, mas a fabricação dela depende de trabalho semi-escravo de adolescentes vietnamitas, somos verdes-do-bem ou somos carrascos?