a jaguarizacion reader

Dec 11

o fim do mundo (tomar corpo)

de Ghérasim Luca

tradução: Jamille Pinheiro

 

 

eu te floro

tu me fauna

 

eu te pele

eu te porto

tu me janela

tu me ossa

tu me oceana

tu me audacia

tu me meteorita

 

eu te clavo de ouro

eu te extraordinario

tu me paroxisma

 

tu me paroxisma

e me paradoxa

eu te cravo

tu me silenciosamente

tu me espelha

eu te mostro

 

tu me miragem

tu me oásis

tu me pássaro

tu me inseta

tu me catarata

 

eu te luo

tu me nuvem

tu me maré alta

eu te transparento

tu me penumbra

tu me translucida

tu me vazio castela

e me labirinta

tu me paralaxa

e me parabola

 

tu me em pé

e deitado

tu me obliqua

 

eu te equinocio

eu te poeto

tu me dança

eu te particularmente

tu me perpendicular

e sótão

 

tu me visível

tu me silhueta

tu me infinitamente

tu me indivisível

tu me ironia

 

eu te frágil

eu te ardento

eu te foneticamente

tu me hieroglifa

tu me espaça

tu me cascada

eu te cascado

é minha vez mas tu

tu me fluida

tu me estrela cadenta

tu me vulcanica

 

nós nos pulverizável

nós nos escandalosamente

dia e noite

nós nos hoje mesmo

tu me tangenta

eu te concentrico

tu me solúvel

tu me insolúvel

tu me asfixiante

e me libertadora

tu me pulsadora

 

tu me vertija

tu me êxtase

tu me apaixonadamente

tu me absoluta

eu te ausento

tu me absurda

 

eu te narino eu te cabelo

eu te quadril

tu me sombria

eu te seio

eu busto teu peito teu rosto então

eu te corpete

tu me odora tu me vertija

 

tu deslizas

eu te coxo eu te caricio

eu te estremeço

tu me escalas

tu me insuportável

eu te amazono

eu te garganto eu te ventro

eu te saia

 

eu te suspensorio eu te baixo eu te Bach

sim eu te Bach para cravo seio e flauta

eu te tremo

tu me seduzes tu me absorves

eu te disputo

eu te arrisco eu te escalo

tu me escovas

eu te nado

mas tu tu me redemoinhas

tu me afloras tu me cernas

tu me carne couro pele e mordida

tu me preta calcinhas

tu me bailarinas vermelhas

 

e quanto tu não salto alta meus sentidos

tu os crocodilas

tu os focas tu os fascinas

tu me cobres

eu te descubro eu te invento

às vezes tu te livras

tu me lábio molhas

eu te livro e tu me deliras

tu me deliras e passionas

eu te ombro eu te vertebro eu te tornozelo

eu te pestano e te pupilo

e se eu não omoplato até meus pulmões

mesmo à distância tu me axilas

 

eu te respiro

dia e noite eu te respiro

eu te boco

eu te palacio eu te dento eu te garro

eu te vulvo eu te palpebro

eu te fôlego

eu te virilho

eu te sangue eu te pescoço

eu te perno eu te certezo

eu te bochechas e te veias

eu te mãos

eu te suor

eu te línguo

eu te nuco

eu te navego

eu te sombro eu te corpo e te fantasmo

 

eu te retino quando inspiro

tu te íris

 

eu te escrevo

tu me pensas

 

extraído da coletânea “Paralipomènes” (1976)