o fim do mundo (tomar corpo)
de Ghérasim Luca
tradução: Jamille Pinheiro
eu te floro
tu me fauna
eu te pele
eu te porto
tu me janela
tu me ossa
tu me oceana
tu me audacia
tu me meteorita
eu te clavo de ouro
eu te extraordinario
tu me paroxisma
tu me paroxisma
e me paradoxa
eu te cravo
tu me silenciosamente
tu me espelha
eu te mostro
tu me miragem
tu me oásis
tu me pássaro
tu me inseta
tu me catarata
eu te luo
tu me nuvem
tu me maré alta
eu te transparento
tu me penumbra
tu me translucida
tu me vazio castela
e me labirinta
tu me paralaxa
e me parabola
tu me em pé
e deitado
tu me obliqua
eu te equinocio
eu te poeto
tu me dança
eu te particularmente
tu me perpendicular
e sótão
tu me visível
tu me silhueta
tu me infinitamente
tu me indivisível
tu me ironia
eu te frágil
eu te ardento
eu te foneticamente
tu me hieroglifa
tu me espaça
tu me cascada
eu te cascado
é minha vez mas tu
tu me fluida
tu me estrela cadenta
tu me vulcanica
nós nos pulverizável
nós nos escandalosamente
dia e noite
nós nos hoje mesmo
tu me tangenta
eu te concentrico
tu me solúvel
tu me insolúvel
tu me asfixiante
e me libertadora
tu me pulsadora
tu me vertija
tu me êxtase
tu me apaixonadamente
tu me absoluta
eu te ausento
tu me absurda
eu te narino eu te cabelo
eu te quadril
tu me sombria
eu te seio
eu busto teu peito teu rosto então
eu te corpete
tu me odora tu me vertija
tu deslizas
eu te coxo eu te caricio
eu te estremeço
tu me escalas
tu me insuportável
eu te amazono
eu te garganto eu te ventro
eu te saia
eu te suspensorio eu te baixo eu te Bach
sim eu te Bach para cravo seio e flauta
eu te tremo
tu me seduzes tu me absorves
eu te disputo
eu te arrisco eu te escalo
tu me escovas
eu te nado
mas tu tu me redemoinhas
tu me afloras tu me cernas
tu me carne couro pele e mordida
tu me preta calcinhas
tu me bailarinas vermelhas
e quanto tu não salto alta meus sentidos
tu os crocodilas
tu os focas tu os fascinas
tu me cobres
eu te descubro eu te invento
às vezes tu te livras
tu me lábio molhas
eu te livro e tu me deliras
tu me deliras e passionas
eu te ombro eu te vertebro eu te tornozelo
eu te pestano e te pupilo
e se eu não omoplato até meus pulmões
mesmo à distância tu me axilas
eu te respiro
dia e noite eu te respiro
eu te boco
eu te palacio eu te dento eu te garro
eu te vulvo eu te palpebro
eu te fôlego
eu te virilho
eu te sangue eu te pescoço
eu te perno eu te certezo
eu te bochechas e te veias
eu te mãos
eu te suor
eu te línguo
eu te nuco
eu te navego
eu te sombro eu te corpo e te fantasmo
eu te retino quando inspiro
tu te íris
eu te escrevo
tu me pensas
extraído da coletânea “Paralipomènes” (1976)