a jaguarizacion reader

Aug 26

sobre sinestesia

depois de duas sessões na universidade - uma sobre dialogismo em bakhtin e outra sobre a relação entre verbo e visualidade na américa indígena - estava pensando em como sinestesia é mesmo uma ficção conceitual bastante grega. dentro de um modo de pensar ocidental-silogístico, fica difícil considerar uma não-compartimentalização dos planos sensoriais - logo, temos a paróquia da visão, o gueto do paladar, o feudo do olfato, a priori sectorizados.

mais do que uma figura de linguagem ou uma disposição neurológica holística de elucidamento da percepção, estou pensando na ideia de sinestesia como constructo clássico mesmo, proto-moderno. um constructo que vira palavra, marca lingüística, para denunciar nossa própria dificuldade (nossa ocidental dificuldade) de sentir (em sentido mais lato aqui), de praticar sentido, se não dentro de caixinhas conceituais. é nosso iletramento imaginativo escancarado.

seja como for, não estou falando nada de particularmente novo; só reconfigurando brevemente pra puxar conversa. baudelaire e rimbaud devem ter pensado em tudo isso, assim como os marubo, os araweté, os wajãpi. cada um do seu jeito, mas com algo em comum. dífícil e delicioso papel, esse da arte, o de problematizar as paredes que as ansiedades taxonômicas ocidentais insistem em dispor entre planos sensoriais.