December 2010
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o fim do mundo (tomar corpo)
de Ghérasim Luca
tradução: Jamille Pinheiro
eu te floro
tu me fauna
eu te pele
eu te porto
tu me janela
tu me ossa
tu me oceana
tu me audacia
tu me meteorita
eu te clavo de ouro
eu te extraordinario
tu me paroxisma
tu me paroxisma
e me paradoxa
eu te cravo
tu me silenciosamente
tu me espelha
eu te mostro
tu me miragem
tu me oásis
tu me pássaro
tu me inseta
tu me catarata
eu te luo
tu...
November 2010
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Sem preconceito
Ou mania de passado
Sem querer ficar do lado de quem não quer...
– Me abraça, Paulinho da Viola (via nogueira)
inéditas
a mim
não divulgo
o segredo dos teus impulsos
apenas nos acolho
espessas e obscuras
numa cama mais íntima
que uma fotografia
a ti
não entrego
a síntese dos meus espasmos
apenas nos velo
quentes e sinuosas
num colo mais perene
que um poema
segunda conjugação da ausente
sábios são os barcos
pois não restam como mar
amar é um idílio
entre Adélia & Adília
October 2010
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A arte de perder
A arte de perder não é nenhum mistério tantas coisas contém em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouco a cada dia. Aceite austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério: lugares, nomes, a escala subseqüente da viagem não feita. Nada disso é sério. Perdi o relógio de mamãe. Ah! E...
February 2010
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e à noite, adormeço-te
experimentando traduzir
VENHO AGIR
de Henri Michaux
Empurrando a porta que há em ti, entrei Venho agir Estou aqui Cuido-te Não estás mais em desamparo Não estás mais em apuros Amarras desatadas, caem tuas dificuldades O pesadelo do qual acordas exaltada já se foi Escoro-te Colocas comigo O pé sobre o primeiro degrau da escada infinita Que te leva Que te eleva Que te realiza Aquieto-te...
January 2010
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movimento dos barcos
no porto o eterno movimento dos barcos movimento movimento movimento dos barcos movimento não lamento o eterno movimento dos barcos
Kafka
nogueira:
“Oferece-te à tempestade. Deixa suas flechas de aço te atravessarem, desliza pela água que ameaça arrastar-te e, malgrado tudo, espera em pé o sol que te inundará subitamente e para sempre.”
December 2009
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2010
Quero uma máquina de filmar sonhos Pra registrar nas noites de verão Meu corpo astral leve, feliz, risonho Voando alto como um gavião Que filme dentro da minha cabeça Todo pensamento raro que eu mereça Toda ilusão a cores que apareça Toda beleza de sonhar em vão
Quero também um trem-bala-de-coco Pra atravessar túneis do dissabor Quero um microcomputador barroco Que seja louco e desprograme a dor...
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Breve bricolage de Underworld
doce no verão doce na chuva trovoada trovoada iluminando adiante beijo-te beijo-te obscura e demorada porque a luz cega meus olhos a luz queima meus olhos aqui onde aspiro o vento atrás de algo violento pra você e pra mim é lindo trinta mil pés sobre a terra você vai me desorientar me dar potência de ninja arranha-céu eu te amo assim como cantou Karl Hyde em dirty epic, ele disse em dark and long,...
O velocímetro de Henri
Quantas vezes a Leica de Henri prendeu a respiração para sequestrar desaparecentes na fração do milissegundo Quantas gentes esqueceram que a Leica suave de Henri caçava sempre silenciosa adivinhando micromovimentos Mas quando a Leica mansinha de Henri Que tinha vontade, mas não tinha pressa Apostava em voos valentes Do coração à retina Algumas lentes meditavam Sobre o minuto da alvorada Que só se...
Como pintar um pássaro
POUR FAIRE LE PORTAIT D’UN OISEAU Jacques Prévert Peindre d’abord une cage avec une porte ouverte pendre ensuite quelque chose de joli quelque chose de simple quelque chose de beau quelque chose d’utile pour l’oiseau placer ensuite la toile contre une arbre dans un jardin dans un bois ou dans une forêt se cacher derrière l’arbre sans rien dire sans bouger… Parfois l’oiseau arrive vite...
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III. Ciberplantas, Primo Lévi e controvérsias da...
Essa crítica leva em conta que, apesar de ser fundamental a leitura dos autores canônicos mencionados - que compartilham uma certa linha discursiva de combate à comidificação do planeta - não é suficiente para o ecoativismo trabalhar com um marxismo baseado em uma lógica de continuidade e ruptura. A reflexão de Deleuze e Guattari sobre os blocos de devir que ressoam a todo tempo oferece condições...
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II. Ciberplantas, Primo Lévi e controvérsias da...
Primo Lévi morreu aos 68 anos e costuma-se dizer que foi suicídio - que pulou no poço da escadaria do seu prédio. Talvez por nunca ter se livrado da vergonha de ser homem. Talvez por nunca ter conseguido distinguir até que ponto era carrasco, compactuava ou resistia. Não funciona ficcionar a linha que separa verdes-do-bem de carrascos de maneira bicromático-objetiva, a distinguir imediatamente...
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I. Ciberplantas, Primo Lévi e controvérsias da...
A planta é destituída de seu status ornamental para se tornar um verdadeiro objeto de serviço, na vanguarda dos novos objetos, anjos guardiões que em breve nos protegerão (Texto de apresentação do produto Bel-Air, hoje comercializado como Andrea Air) Ontem soube, com alguma perplexidade, da existência dos filtros vegetais - ou ciberplantas para purificação do ar - de Mathieu Lehanneur. Foi no...
November 2009
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As fotografias dos nove casamentos infinitos de...
o ritmo da jazz-band é analógico e se Lyra conduzisse e se Baden suingasse e Drummond drummondgrafasse uma bossa fluminense de Moraes & Jobim de você & de mim a gente explicaria o que é paixão tropeçando no Quartier Latin vamos embarcar, nove e meia semanas de Itapuã, duas de guerra e a gente desexplicaria e eu iria Johnny Walking porque lá em Botafogo não captura-se em 21 megapixels vamos...
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Despoliedro
E ficavam as curvas do quebra-cabeça Proliferando côncavos e convexos, Tão seguros de seus ângulos enxutos Alinhavados por vetores precisos. E as regras das retas começaram a vergar Desalinhando esse eixo, aquele encaixe, Quando ao cortejar uma peça inédita Decompôs seus arcos em linhas dispersas.
voo livre
Perigosas palavras ao vento
Ainda esbarram no paraíso
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Samba da Estreia*
Meu bem, se tua estratégia é feita de álgebra Lanço tua geometria em um poema-pólvora Danço uma rima rica no teu prêmio máximo Vou de vocabulário em teu teatro ártico Logo que minha boca lascar tua máscara Taco meu verso branco em teu traço plástico Abalo teu monólogo com um beijo sísmico Vem calar minha língua com um gesto rígido Não vês? Se adias assim, de um jeitinho prático A gente em meio à...
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Seu Orlando
Pega. Você pode pegar? Pega aqui. Tá vendo? Tá tremendo. É que saí do CTI hoje. Minha veia tá tremendo porque é minha quarta ponte de safena. Fiz hemodiálise. Já tive dois infartos. Estou com marcapasso. Ele que me bombeia, porque eu só não dou conta. Vê? Eles me serraram. Quatro pessoas morreram lá no CTI durante o apagão, sabe? O gerador só dava conta do ar condicionado. Você é uma boa...
September 2009
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sendo tabard
ainda animada com passeio de ontem: jean oury, da clínica la borde, interlocutor de guattari e lacan, comentou o filme “zéro de conduite”, de jean vigo, no sesc da paulista. ladeado por lygia fagundes telles, falou das linhas de força anárquicas que ligam o cinema de vigo à psicoterapia institucional da la borde. disse que ainda se sente como o personagem tabard de “zéro de...
diagnóstico
queria fazer esse blog um tiquinho mais 2 + 2 = 4, mas aí bate um bloqueio criativo grave e a disrupção perde a eficácia (lembranças de foucault na abertura de “a ordem do discurso”, “gostaria de me insinuar sub-repticiamente (‘j’aurais voulu pouvoir me glisser subrepticement…’) no discurso que devo pronunciar hoje…”). na dúvida, um prognóstico...
August 2009
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sobre sinestesia
depois de duas sessões na universidade - uma sobre dialogismo em bakhtin e outra sobre a relação entre verbo e visualidade na américa indígena - estava pensando em como sinestesia é mesmo uma ficção conceitual bastante grega. dentro de um modo de pensar ocidental-silogístico, fica difícil considerar uma não-compartimentalização dos planos sensoriais - logo, temos a paróquia da visão, o gueto do...
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dos caracóis, deleuzoguattarianistas por...
arrisco uma sessão rápida e romântica de antropologia-filosofia-conversinha-de-boteco. compartilho o escrito bonito de claude lévi-strauss sobre a vida sexual dos caracóis - ou, extrapolaria eu, o amor segundo o estruturalismo (vindo de um precursor do pós-estruturalismo). sobre os moluscos, hermafroditas (de fecundação cruzada), conta o véio bruxo: “Comme cela se passe dans la vie sexuelle...
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desbruxaria
lendo stengers e pignarre sobre capitalismo como feitiçaria (“la sorcellerie capitaliste - pratiques de désenvoûtement”), divirto-me com as traduções diferentes sugeridas por pessoas diferentes para o neologismo “désenvoûtement”: desenfeitiçamento, desocultamento, descarrego e desbruxaria. as duas últimas são mais farristas, logo favoritadas.
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intemporalidade
assim sendo, é caso de conjugar substantivo verbo amor no futuro do subjuntivo, que é da abertura de possibilidades; torcer nariz para futuro do pretérito, que é do cerramento. plano de fuga do “gostaria” ao “e se?”, sem reticências. conjugar como déjà vu às avessas, metaléptico, tipo “já nos vi escritos(as) depois”. pois quando chegar, será como se...
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começando
pelas insistentes contrações involuntárias do músculo cardíaco, pelo futuro do subjuntivo que não dá trela a modo indicativo, porque sou ignorante, pelos planos megalomaníacos ocidentalmente desenhados, pela dor e delícia das quedas monumentais, pela tarada curiosidade sempre subjacente, pelas regenerações que vêm e vêm sempre, pela cor e sabor das frutas das feirinhas, porque a baía continua lá,...
Ultimatum
Mandado de despejo aos mandarins do mundo Fora tu reles esnobe plebeu E fora tu, imperialista das sucatas Charlatão da sinceridade e tu, da juba socialista, e tu qualquer outro. Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos. Monte de tijolos com pretensões a casa Inútil luxo, megalomania triunfante E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir. Ultimatum a...
nominação
tem a ver - não tão somente, mas tem a ver - com “meu tio, o iauaretê”, de guimarães rosa, sendo iauaretê “jaguaretê”, do tupi yaware’te, “onça verdadeira”. alguns já falaram (deleuzoguattarianamente) da jaguarização do bugreiro no conto, antes contratado para desonçar o mundo, que se descentra-desumaniza rizomático-felinamente. devir-animal à moda de...