Samba da Estreia*
Meu bem, se tua estratégia é feita de álgebra
Lanço tua geometria em um poema-pólvora
Danço uma rima rica no teu prêmio máximo
Vou de vocabulário em teu teatro ártico
Logo que minha boca lascar tua máscara
Taco meu verso branco em teu traço plástico
Abalo teu monólogo com um beijo sísmico
Vem calar minha língua com um gesto rígido
Não vês? Se adias assim, de um jeitinho prático
A gente em meio à luz de um holofote mágico
Eu sigo a sabotar sorrindo teu projeto cênico
Vivo ainda a duvidar do teu rostinho plácido
A gente estrear sucesso é o horizonte lógico
Logo tua forma afina com meu verbo trópico
Logo meu corpo assina uma trégua bêbada
E eu bem que decreto greve nesta retórica
*Taí que este sambinha proparoxítono indecente, trava-língua duvidoso de métrica buarquina, não vou rasgá-lo
2 days ago | Tags: samba
Seu Orlando
Pega. Você pode pegar? Pega aqui. Tá vendo? Tá tremendo. É que saí do CTI hoje. Minha veia tá tremendo porque é minha quarta ponte de safena. Fiz hemodiálise. Já tive dois infartos. Estou com marcapasso. Ele que me bombeia, porque eu só não dou conta. Vê? Eles me serraram. Quatro pessoas morreram lá no CTI durante o apagão, sabe? O gerador só dava conta do ar condicionado. Você é uma boa companheira de viagem. Seu cheiro é bom. Cheiro de bebê. Está ajudando a equilibrar a minha pressão. E eu durmo, acordo, vejo você; penso até que, vendo você, vejo minha família. Você parece minha família. Já tive medo de morrer, sabe? Tenho 63 anos. Não tenho mais medo. Eu falo francês, não gosto de inglês, arranho italiano. Viajei muito pela Europa. Amei apenas uma mulher, minha primeira namorada, minha única esposa, durante 38 anos. Sou designer de joias, mas não consigo mais nem ficar em pé. Sou diabético. E não tenho mais medo de morrer, não. Queria só adotar uma criança, um órfão ou uma órfã mais velhos, que ficam largados por aí, mas não tenho mulher e não soube limpar nem a bunda dos meus filhos. E hoje tem essa história de pedófilo. Vai que acham que sou pedófilo. Você tem um nome bonito. Mas eu ando esquecido pra nomes. Eu sou o Orlando. Talvez esqueça do seu nome. Mas não vou esquecer do seu cheiro. Cheiro de recém-nascido. Minha dor de cabeça até passou. Vai, minha filha; você está atrasada.
sendo tabard
ainda animada com passeio de ontem: jean oury, da clínica la borde, interlocutor de guattari e lacan, comentou o filme “zéro de conduite”, de jean vigo, no sesc da paulista. ladeado por lygia fagundes telles, falou das linhas de força anárquicas que ligam o cinema de vigo à psicoterapia institucional da la borde. disse que ainda se sente como o personagem tabard de “zéro de conduite” - o aluno bonzinho, exemplar, que repentinamente vira para o professor pomposo e revida: “et je vous dis merde!” (o filme é de 1933… taí que foucault não vem do nada)… concluiu com a bela frase “lorsque la neige fond, où va le blanc?” (quando a neve derrete, para onde vai o gelo?), atribuída por ele a shakespeare
2 months ago | Tags: cinema anarquia tabard jean vigo jean oury lygia fagundes telles félix guattari jacques lacan
diagnóstico
queria fazer esse blog um tiquinho mais 2 + 2 = 4, mas aí bate um bloqueio criativo grave e a disrupção perde a eficácia (lembranças de foucault na abertura de “a ordem do discurso”, “gostaria de me insinuar sub-repticiamente (‘j’aurais voulu pouvoir me glisser subrepticement…’) no discurso que devo pronunciar hoje…”). na dúvida, um prognóstico possível: um pouquinho de silêncio vai bem… gostaria de postar sub-repticiamente, pero…
filosofismos à parte, j’ai beaucoup à faire…
sobre sinestesia
depois de duas sessões na universidade - uma sobre dialogismo em bakhtin e outra sobre a relação entre verbo e visualidade na américa indígena - estava pensando em como sinestesia é mesmo uma ficção conceitual bastante grega. dentro de um modo de pensar ocidental-silogístico, fica difícil considerar uma não-compartimentalização dos planos sensoriais - logo, temos a paróquia da visão, o gueto do paladar, o feudo do olfato, a priori sectorizados.
mais do que uma figura de linguagem ou uma disposição neurológica holística de elucidamento da percepção, estou pensando na ideia de sinestesia como constructo clássico mesmo, proto-moderno. um constructo que vira palavra, marca lingüística, para denunciar nossa própria dificuldade (nossa ocidental dificuldade) de sentir (em sentido mais lato aqui), de praticar sentido, se não dentro de caixinhas conceituais. é nosso iletramento imaginativo escancarado.
seja como for, não estou falando nada de particularmente novo; só reconfigurando brevemente pra puxar conversa. baudelaire e rimbaud devem ter pensado em tudo isso, assim como os marubo, os araweté, os wajãpi. cada um do seu jeito, mas com algo em comum. dífícil e delicioso papel, esse da arte, o de problematizar as paredes que as ansiedades taxonômicas ocidentais insistem em dispor entre planos sensoriais.
dos caracóis, deleuzoguattarianistas por excelência
arrisco uma sessão rápida e romântica de antropologia-filosofia-conversinha-de-boteco. compartilho o escrito bonito de claude lévi-strauss sobre a vida sexual dos caracóis - ou, extrapolaria eu, o amor segundo o estruturalismo (vindo de um precursor do pós-estruturalismo). sobre os moluscos, hermafroditas (de fecundação cruzada), conta o véio bruxo:
“Comme cela se passe dans la vie sexuelle des escargots, la fonction propre ou figurée de chaque classe, indéterminée au départ, selon le rôle qu’elle sera appelée à jouer dans une structure globale de signification, induira dans l’autre classe la fonction opposée”.
em outras palavras,
“Como acontece na vida sexual dos caracóis, a função própria ou figurada de cada classe, inicialmente indeterminada, segundo o papel que lhe caberá em uma estrutura global de sentido, irá induzir na outra classe a função oposta”.
o trecho é de “la potière jalouse” (1985, p. 254), que saiu por aqui como “a oleira ciumenta”. digo amor segundo o estruturalismo - e digo que é bonito - porque faz pensar como nunca chegamos totais, prontos, acabados, em uma relação. entramos “inicialmente indeteminados” e nos significamos a partir do encontro. taí uma resposta possível pra quem ainda pensa em termos pré-determinados ou determinantes de “ativo” e “passivo” em certas relações. traduzindo pra mesa de bar, até parece que se nasce pronto.
mas seria injusto com o véio parar a narrativa do causo aí. o que é uma graça mesmo é o lévi-strauss pioneiro do pós-estruturalismo caminhando “histoire de lynx” adentro pra afirmar que há um ternarismo implícito mediando qualquer binarismo concêntrico. e, se vocês querem saber qual a mensagem do biscoito da sorte chinês para este fim da noite, os caracóis já ensinaram o que temos que saber sobre a noção deleuzoguattariana de devir. a ideia de assimetria implicativa, de relação como disjunção inclusiva entre pólos mutuamente condicionantes, ou seja, o movimento da diferença intensivo-rizomática - poderia muito bem ter vindo daí. depois de lévi-strauss, moluscos são um barato.
2 months ago | Tags: breguices um pouco menos breves deleuze caracóis lévi-strauss
desbruxaria
lendo stengers e pignarre sobre capitalismo como feitiçaria (“la sorcellerie capitaliste - pratiques de désenvoûtement”), divirto-me com as traduções diferentes sugeridas por pessoas diferentes para o neologismo “désenvoûtement”: desenfeitiçamento, desocultamento, descarrego e desbruxaria. as duas últimas são mais farristas, logo favoritadas.
2 months ago | Tags: isabelle stengers philippe pignarre la sorcellerie capitaliste désenvoûtement traduções farristas capitalismo
intemporalidade
assim sendo, é caso de conjugar substantivo verbo amor no futuro do subjuntivo, que é da abertura de possibilidades; torcer nariz para futuro do pretérito, que é do cerramento. plano de fuga do “gostaria” ao “e se?”, sem reticências. conjugar como déjà vu às avessas, metaléptico, tipo “já nos vi escritos(as) depois”. pois quando chegar, será como se estivera-estivesse-estará, sempre.
2 months ago | Tags: amor bakhtin deleuze breguices breves explode coração
começando
pelas insistentes contrações involuntárias do músculo cardíaco, pelo futuro do subjuntivo que não dá trela a modo indicativo, porque sou ignorante, pelos planos megalomaníacos ocidentalmente desenhados, pela dor e delícia das quedas monumentais, pela tarada curiosidade sempre subjacente, pelas regenerações que vêm e vêm sempre, pela cor e sabor das frutas das feirinhas, porque a baía continua lá, porque ainda tomo pancadas de chuva, porque ousadia não me é dilema, porque estradas me fazem melhor do que antes, porque fins são princípios, estou só começando. estamos só começando.
2 months ago | Tags: breguices breves